Amadurecimento Humano

O AMADURECIMENTO HUMANO.

 

 

Psicologia do DesenvolvimentoO fruto imaturo encaminha-se para o seu amadurecimento. No amadurecimento aquilo que ele ainda não é de modo algum se oferece como algo que se lhe ajunta, no sentido de algo que ainda não é simplesmente dado. O próprio fruto amadurece. O amadurecer e o amanhecer caracterizam-lhe o ser, enquanto fruto. Não fosse o fruto um ente que chegasse por “si mesmo” ao próprio amadurecimento nada que se lhe acrescentasse poderia eliminar-lhe a imaturidade. O ainda não da imaturidade não significa uma coisa exterior... ao fruto... mas... indica o próprio fruto em seu modo específico de ser. O ainda não já está incluído em seu próprio ser não como uma determinação arbitraria, mas como um constitutivo.

Heidegger

 

 

 

 

         A TEORIA DO AMADURECIMENTO EM WINNICOTT

 

O amadurecimento é a espinha dorsal do trabalho de Donald Wood Winnicott. Ele atuou na maior parte de sua carreira como pediatra e, observando as mães e seus bebês em sua clínica, percebeu a importância do amadurecimento e constatou que a maior parte dos problemas que levavam mães e bebês ao médico estavam ligados a dificuldades emocionais primitivas.

Como autor, Winnicott não faz uma apresentação sistemática de sua teoria a não ser em Natureza Humana (1990) que, no entanto, ficou inacabada com a sua morte. Aletti[1], comentando essa postura de Winnicott, observa:

 

 

Embora não tenha sido um professor universitário, foi um grande mestre que gostava de ensinar, acreditava muito mais na eficácia da palavra que estabelece o dialogo que na organicidade dos tratados e não estava interessado em publicar manuais.

Em suas aulas, palestras e sessões com seus pacientes a sua atitude era a de quem quer realmente aprender.

 

Para entender o conceito de amadurecimento em Winnicott é interessante, fazer uso da hermenêutica e seu principio clássico segundo o qual cada parte de uma obra deve ser reconstituída levando em conta o todo.

Para Winnicott todo individuo humano possui uma tendência inata para o amadurecimento e durante este processo passa por três fases que são: a dependência absoluta, a fase de onipotência e a fase rumo à independência.

Durante o estágio da não integração, o bebê vive a dependência absoluta, de tal forma que sequer pode-se pensar nele como indivíduo. Em uma reunião da Sociedade Britânica de Psicanálise Winnicott afirmou que “bebê é uma coisa que não existe”.  E lembrou que sempre que vemos um bebê vemos alguém cuidando dele.

No início, o bebê e a mãe constituem uma unidade fusional. Nesta fase ainda não existe o eu e o não eu, não há objetos externos, não há si mesmo, não há mãe, mas apenas uma sensação difusa de poder continuar a ser.

No início da vida a unidade não é o individuo, mas uma organização meio-ambiente indivíduo. O centro de gravidade do ser não começa no individuo, está na organização total.

Através de um cuidado suficientemente bom da criança, da técnica do holding e do manejo geral, o bebê pode começar a ser um individuo, “a casca é gradualmente deixada de lado e o cerne que o tempo todo nos pareceu ser um bebê humano pode começar a ser um individuo”[2].

O cuidado suficientemente bom advindo de um ambiente facilitador, segundo nos fala Winnicott, refere-se à oferta de condições físicas e psicológicas que favorecem o desenvolvimento do bebê.

Para Winnicott no início da vida não temos relações objetais a unidade não é o individuo, a unidade é uma organização meio-ambiente indivíduo. O centro de gravidade do ser não começa no individuo, está na organização total.  

O ambiente facilitador, de que fala Winnicott, refere-se às condições físicas e psicológicas que favorecem o desenvolvimento do bebê. O bebê não é determinado pelo ambiente, mas apenas um ambiente suficientemente bom será capaz de oferecer as condições necessárias para o desenvolvimento do self, para que o bebê possa vir a ser ele mesmo.

Apesar da palavra dependência implicar na existência de um outro ser humano, do ponto de vista do amadurecimento, neste estágio primitivo de dependência absoluta, a mãe para o bebê não existe, não há externalidade: a mãe é parte do bebê.

Safra[3] esclarece:

 

 

O corpo materno nesta etapa é o próprio corpo do bebê, em que ele pode paradoxalmente, criar todo o mundo humano já ali presente. A corporeidade materna traz maneiras de se colocar tempo, no espaço no mundo, para que sejam descobertas pelo bebê, trata-se de organizações étnico culturais que permitem que a mãe possa cuidar do bebê humano.

 

A constituição de um eu, de uma realidade intrapsíquica e da relação com o outro emerge necessariamente desta relação mãe bebê.

Para emergir do não ser para o ser, o bebê depende do ambiente facilitador inicial. A mãe suficientemente boa reconhece a dependência do bebê, devido a sua identificação com ele, responde às suas necessidades, ou seja, a mãe suficientemente boa é aquela que é sensível para perceber e se identificar com as necessidades do bebê.

Nesses estágios iniciais, durante a fase de dependência absoluta a provisão da mãe promove condições de confiabilidade e segurança permitindo que se estabeleça confiança para o bebê poder ir se integrando e constituir mundo. E é essa confiança, gerada pelo ambiente facilitador, que possibilita o amadurecimento saudável.    

Com a conquista de um eu, o bebê pode começar a integrar presente, passado e futuro, característica fundamental da temporalidade adulta amadurecida.    

A mãe suficientemente boa possibilitará ao bebê a ilusão de que ele cria aquilo que ele encontra, o que caracteriza a fase de onipotência.

A ilusão trás em si um paradoxo, pois o que é criado pelo bebê já estava lá para ser criado. A mãe criada de forma onipotente precisa primeiro estar lá para ser criada pelo bebê. E ao ser encontrada permite o desenvolvimento do modo de ser criativo.

A relação de confiança estabelecida com a mãe permite ao bebê lidar com tranqüilidade com a distinção que vai se estabelecendo entre o mundo interno e o mundo externo.

Quando a mãe, ao sair do estado de maternagem, cria um afastamento entre ela e o bebê, mostra aquilo que não é ele (desiludindo o bebê) e possibilita a constituição de uma área intermediaria da experiência, a da transicionalidade. Nessa área, na qual o bebê começa a constituir sua subjetividade no sentido de perceber-se como si-mesmo, o relacionamento começa a acontecer com um objeto transicional. Para Winnicott o objeto transicional é a primeira posse não eu.

Winnicott propõe de maneira original a terceira área da experiência, área intermediaria de experimentação para a qual contribuem, tanto a realidade interna como a externa. Uma área que não é disputada, pois nenhuma reivindicação é feita em seu nome.

Essa área se situa entre a incapacidade do bebê em reconhecer a realidade e sua crescente habilidade em reconhecê-la e aceitá-la.     

O bebê passa a lidar, a partir de seu mundo subjetivo em construção, com alguma coisa como um paninho, uma bola de lã, uma palavra, uma música, melodia ou algum objeto macio.

Winnicott apresenta um resumo das qualidades especiais do objeto transicional. No início o bebê assume direitos sobre o objeto, ele é afetuosamente acariciado, tanto quanto amado com excitação e mutilado. Coloca Winnicott que o objeto transicional não deve mudar nunca, a não ser que a mudança seja provocada pelo bebê. Ele deve sobreviver ao amor e ao ódio instintivos, deve dar a impressão de proporcionar calor, de se mover, ser dotado de textura, ou fazer algo mostrando que tem vitalidade ou realidade próprias. O objeto subjetivo vem de fora do ponto de vista do adulto, mas não do ponto de vista do bebê. Ele também não vem de dentro, não é uma alucinação. Gradualmente ele é destruído e o bebê se dá conta de sua externalidade.

Em O Brincar e a Realidade (1975) Winnicott mostra que a transicionalidade é a primeira utilização de um objeto não eu e enumera cinco aspectos a serem estudados: a natureza do objeto, a capacidade do bebê reconhecê-lo como sendo não eu, sua localização fora dentro na fronteira, a capacidade do bebê de criar e o início do tipo afetuoso de relação de objeto.              

Ao estudar a ilusão, Winnicott a reconhece como início da experiência cultural no bebê e como base da arte e da religião nos adultos. Para ele, a área intermediaria continua vida afora, e um adulto não reivindica objetividade nessa área. Enquanto potencial saudável, compartilha prazerosamente a sobreposição com a área intermediaria de outros adultos, na arte, na filosofia e na religião.

A questão da ilusão-desilusão e da frustração é, portanto, fundamental para entender o amadurecimento e sua dinâmica no pensamento de Winnicott. O autor entende que a mãe suficientemente boa é aquela que efetua uma adaptação ativa às necessidades do bebê. Com o amadurecimento do bebê a mãe suficientemente boa adapta-se cada vez menos completamente às necessidades do bebê que vai adquirindo a capacidade de lidar com o fracasso dela. O bebê passa, então, a ter a oportunidade de lidar com os objetos reais: a amá-los, odiá-los a poder recordar, viver, fantasiar e a integrar passado, presente e futuro.                      

Em Winnicott, o valor da ilusão é muito importante para pensar o desafio do amadurecimento. Mostra o autor que, no objeto transicional, o bebê primeiro faz uso da ilusão, e, a partir dele, relaciona-se com outros objetos, por outros percebidos como externos. A atividade não se esgota apenas nessa fase. A continuidade da atividade transicional se efetua no brincar.

Quem brinca não está apenas fantasiando, mas fazendo alguma coisa. O brincar é visto como atividade fundamental no desenvolvimento, integrando realidade psíquica interior com controle de objetos reais. É importante a tal ponto de Winnicott entender que, caso o paciente não possa brincar, esse sintoma deve ser visto antes de outros fragmentos de conduta.

Para Winnicott o próximo momento ou estádio do amadurecimento é poder ficar só na presença de alguém, baseado na confiança.

Heidegger, no texto O Caminho do Campo[4], tem uma pequena passagem que mostra claramente esse momento:

 

 

Mas era na casca do carvalho que os meninos recortavam seus navios. Equipados com banco de remo e leme, flutuavam no Mettenbach ou na fonte da escola. As viagens de volta ao mundo dos jogos chegavam fácil ao destino e sempre voltavam a encontrar as margens. O que estas viagens tinham de sonho era protegido num brilho quase imperceptível àquele tempo, mas espalhado por todas as coisas. Seu reino era delimitado pelos olhos e pelas mãos da mãe. Era como se seu cuidado silencioso velasse sobre todos os seres.

 

Só na presença da mãe, que está ali, mas não invade o mundo interno da criança, o brincar se encontra em uma área que não admite intrusão e nem pode ser facilmente abandonada. A realidade pessoal interna e os objetos externos interagem, a criança se preocupa, se concentra. E no brincar acontece a liberdade de criação tal qual na atividade cultural do adulto. Somente sendo criativo o individuo pode manifestar seu eu (seu self) e o brincar é porta privilegiada para ser criativo.

O brincar é base de toda atividade cultural, uma área que não é nem exterior nem interior. Através da percepção criativa a pessoa pode perceber que a vida é digna de ser vivida. O existir criativo é saudável e o existir submisso é doentio. A pessoa que perde a capacidade de existir criativamente tem dúvidas quanto, a saber, se a vida vale a pena. 

Na arte, na poesia, encontra-se o viver poético e criativo. No entanto, mais prosaicamente, essa forma de ser pode apresentar-se na vida da pessoa nos afazeres cotidianos, no modo de se relacionar com as questões cotidianas. Em um espaço pessoal e próprio que é, ao mesmo tempo, compartilhado.

A linguagem poética em Winnicott pode ser entendida como a capacidade de existir sendo criativo. O espaço do poético é onde pode haver envolvimento, autoria e apropriação, e a ausência deste implica em um modo de ser defensivo, reativo superficial e adaptativo.                

Winnicott afirma que quando o bebê já simboliza, ele já está distinguindo claramente fantasia de fato. Distingue objetos internos de externos, criatividade primária e percepção. Para Winnicott, é fundamental o fato de que o termo objeto transicional abra campo para o processo de tornar-se capaz de aceitar diferença e similaridade. 

Winnicott usa o exemplo da hóstia na sagrada comunhão, que para os católicos é de fato o corpo de Cristo e, para a comunidade protestante, é um substitutivo de algo evocativo. Afirma que, em ambos os casos, trata-se de um símbolo. Winnicott afirma que objeto transicional é o termo que explica a jornada do simbolismo no tempo, o caminho que o bebê percorre do puramente subjetivo para a objetividade.

Winnicott dá um valor positivo para a ilusão.

Para esse autor, a tarefa de aceitação da realidade não se completa nunca. Os seres humanos estão permanentemente envolvidos na tarefa de relacionar realidade externa e interna. E o alívio desta tensão se dá em uma área intermediaria da experiência que na criança ocorre no brincar e que no adulto se encontra nas artes e na religião.

É no brincar que se situa a origem da experiência cultural e religiosa do adulto. Se acaso a criança estiver impedida de brincar, terá dificuldades nessas áreas no futuro.

   



[1] ALETTI, M. “Arte, cultura e religião na vida adulta: rabiscos Winnicottianos”. In: IRENE, G. A. & ANCONA-LOPEZ, M. Temas em Psicologia da religião. São Paulo: Ed. Vetor, 2007.

[2] WINNICOTT, D. W. “Objetos transicionais e fenômenos transicionais”. In: O Brincar & a Realidade. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1975.

[3] SAFRA, G. Momentos mutativos em psicanálise. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1996. p. 46.

[4] HEIDEGGER, M. O Caminho do Campo. São Paulo: Ed. Livraria Duas Cidades, 1969.

 
 
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