Sindrome do Pânico

Psicopatologia Reimaginada:

Reimaginando o Transtorno de Pânico

 
Autor: Ajax Perez Salvador
apersal@uol.com.br
 

“Através dos ferimentos na vida humana que os Deuses entram”

 “pato-logia é a maneira mais palpável de testemunhar

os poderes que estão além do controle do ego”

James Hillman

 

Deus PanOs códigos psiquiátricos se apresentam como resultado da concordância de vários especialistas sobre os limites entre categorias em saúde mental. Sua intenção específica é clara na introdução do Manual diagnóstico e estatístico IV (DSM IV) e do Código Internacional de Doenças X (CID X).


“Estas descrições e diretrizes não contêm implicações teóricas e não pretendem ser proposições completas a cerca do estágio atual de conhecimento dos transtornos. Elas são simplesmente um conjunto de sintomas e comentários sobre os quais houve uma concordância por parte de um grande número de conselheiros consultores em muitos diferentes países como sendo uma base razoável para definir os limites de categorias na classificação de transtornos mentais.”

(CID X,1993, p.2)

De outra maneira, usando como referencial a psicologia arquetípica, este trabalho procura fazer uma aproximação metafórica de textos psiquiátricos. Metáfora, aqui, como uma forma de ver que trata o que aparece como constelação de atributos aglutinados e não como unidade; olhar metafórico como uma aproximação de sínteses não totalizantes; construção imaginativa onde o olhar poético afirma sua potência cognitiva; compreender texto psiquiátrico como texto mitológico; como falando de mitos que nos atravessam e nos constituem; os mitos da nossa época.

As soluções imaginadas (por um paciente) para (sua) doença pertencem à imagem da doença...

As soluções para o problema (de Tebas) apresentam o problema (de Tebas).

Sofre por causa do método através do qual ela reflete sobre o seu sofrimento. Pg. 79

Édipo e Variações Kerény,K &Hillman,J ed. vozes Petrópolis 1995

 

Como nos diz Roberto Calasso, os deuses podem ser vistos como tudo o que nos move, nos faz rir ou chorar: “quando a vida se inflamava, no desejo ou no sofrimento, ou mesmo na reflexão, os heróis homéricos sabiam que ali havia um deus em ação” (Calasso,1990). Então nos manuais psiquiátricos podemos encontrar a apresentação dos deuses em sua roupagem atual. “Os deuses viraram doenças”! Afinal a conceitualização de transtorno mental nestes códigos é:

uma síndrome ou padrão comportamental ou psicológico clinicamente importante, que ocorre em um indivíduo e que está associado com sofrimento ou incapacitação ou com risco significativamente aumentado de sofrimento atual, morte, dor, deficiência, ou uma perda importante da liberdade.

... qualquer que seja a causa original ela deve ser considerada no momento como uma manifestação de uma disfunção comportamental, psicológica ou biológica no indivíduo.

                                    (CID X,1993, p.5)

           

Transtorno mental é, então, o que faz o indivíduo sofrer, que o incapacita, que restringe sua ação ou sua suposta liberdade. Se este “indivíduo” apresenta-se aglutinando os atributos do sujeito moderno, a doença será a apresentação dos limites desta forma sujeito e os transtornos serão os poderes que estão além do controle do ego, ou da perspectiva egóica, se assim os lermos.

            Transtorno mental/problema literalizado

Uma vez que “problemas”, na perspectiva imaginal, são metáforas que se literalizaram - Qual problema está literalizado em cada fantasia psicopatológica? 

Se o problema foi estruturado por procedimentos de universalização próprios ao pensamento conceitual, temos um processo de unificação da multiplicidade, que aparece como problema visto como algo que literalmente é. Então, para poderemos ler nas figuras inscritas o que escapa como conteúdo à forma categorial; o que permanece opaco à pura contemplação empírica; à designação ostensiva, precisamos dissolver “o problema”. Fazer intervir outras formas imaginativas expondo contradições engendradas e quebrando a aparência de invariabilidade dos objetos.

 

O que uma leitura que se aproximasse metaforicamente do que foi descrito poderia nos dizer?  O que estes textos falam à imaginação?

Uma das estratégias propostas é perguntar “Quem”, ou para quem as coisas são desta forma. Que forma de vida descreve isto como sendo “o problema”?  Busca-se legitimar a multiplicidade de “Quems” que habitam a vida; Quem estava apresentando o transtorno,“o problema”; quem descreve o conjunto de sintomas e sinais?

Começa-se a leitura buscando produzir um efeito ritual. Os rituais facilitam vivenciar coisas como elas sendo mais do que aparentam ser. Num ritual o que acontece é e não é, ao mesmo tempo; ele é aquilo que acontece e não é aquilo que acontece; porque ele sempre é mais do que parece ser; ele é sempre outra coisa sem deixar de ser ele mesmo.

O que se está lendo é sempre mais do que o que está sendo lido; uma outra leitura, por um leitor outro e outros ouvintes; trazer outros.

Além do CID X, DSM IV, um texto psiquiátrico considerado referência importante no campo da saúde mental é o Compêndio de Psiquiatria Harold Kaplan e Col.(Kaplan,2003). Inicia-se o texto:

Desde que o diagnóstico de transtorno de pânico foi codificado, em 1980.. ...acumulou-se uma abundância de dados de pesquisas sobre o transtorno e experiências clínicas com pacientes afetados. (...) e, mais importante, houve o desenvolvimento de tratamentos específicos de eficácia comprovada. ...

A validade da classificação tem sido bem justificada desde 1980 (...) pelo desenvolvimento de tratamentos específicos para o transtorno de pânico.

(Kaplan,2003,p.553)

           

A paisagem já começa a delinear na imaginação seus contornos...

 

Há alguém falando/escrevendo na crença de que, a eficácia de um tratamento é prova da existência de um problema. E, é porque há tratamentos específicos, que a validação do transtorno justifica-se ainda mais. É o acumulo de dados e o tratamento específico, de eficácia comprovada, que solidificam a existência literal do transtorno. É alguém para quem a solução de um problema é a prova de sua existência. É a solução que dá existência ao problema. Os problemas são as soluções ou as soluções são os problemas.

 O conteúdo resulta do método. Aquilo que é descoberto está extremamente ligado ao modo como é descoberto.”

(Kerény, 1995 pg.108)

A palavra problema significa originariamente algo que permanece ou aparece à visão, uma barreira, um obstáculo, uma tela. A palavra em grego podia se referir a defesas armadas ou armaduras.

...por meio da resolução de problemas o ego parcialmente define a si mesmo. Ego heróico e problemas duros solicitam um ao outro.

(Hillman, 1975 pg. 135).

 

Há alguém que existe enquanto solucionador de problemas. Talvez alguém heróico como Édipo, o decifrador de enigmas. Que vê um problema como enigma a ser decifrado. Que ao decifrar o enigma, dá a este um sentido único (literaliza) e procura escapar à multiplicação de sentidos que o enigma pode propor; leva a Esfinge a sua queda e destruição. Como se pudesse eliminar a própria geração de enigmas, de mistérios; como se decifrando o enigma matasse as ambigüidades da vida; como se determinando eliminasse a indeterminação.

 

O heroísmo forma o próprio discurso como, ... um sentido literal de oposição.

(Kerény, 1995 pg. 95).

 

Herói como auto-afirmação unitária (referindo-se ao mito de Ulisses)

(Adorno, 1985 pg.53)

Isto vai nos levando à fantasia do Herói, uma vez que herói e problema sustentam-se mutuamente. Imaginamos aqui um “Quem” que se apresenta como o que James Hillman vai chamar o ego heróico. Esta figura alinha-se com a ciência médica esclarecida e empírica. O ego heróico precisa construir sua fantasia de realidade com pesquisas e com raciocínios do tipo: Se um ataque de pânico ocorre de forma espontânea, sua gênese deve ser interna (uma vez que não há eventos causais externos identificados, é a biologia que está internamente alterada). Se os pacientes melhoram (os sintomas) significativamente com antidepressivos, há uma alteração subjacente de neurotransmissores relacionada à causa do transtorno. Mais do que refutar a lógica apresentada, o relato nos faz imaginar o papel da fantasia biológica como fator causal do que está acontecendo na vida. Vamos retomar este tema mais à frente.

             No item etiologia - fatores biológicos - as substâncias indutoras de pânico usadas nas pesquisas vão construindo, depois de muitos dados, duas figuras que se repetem e que vou aqui condensar nas idéias de um tônus simpático aumentado e de uma alteração na percepção do gás carbônico – sistema respiratório.

             O tônus simpático aumentado nos apresenta a adrenalina (substância do sistema simpático) como o elemento fundamentalmente envolvido com as alterações. Adrenalina vai sendo o que é liberado para que o organismo fique em prontidão para qualquer ameaça; pronto para luta ou fuga. O tônus simpático está aumentado, adapta-se mais lentamente e responde excessivamente. Afinal a anormalidade é biológica e está na estrutura do sistema nervoso! Metaforicamente este tônus simpático vai se tornando uma personagem; uma figura que nos apresenta à prontidão constante; que põe a vida numa posição de espera para um ataque a qualquer momento.  As ocorrências espontâneas e inesperadas passam a ser um perigo; não à-toa, o ataque de pânico é descrito como uma ocorrência espontânea e inesperada (adrenalina, não como resposta a expressão da vida, da vida pulsando, ofegante, suando).

            O sistema respiratório - apresentado como algo que identifica mal. Há a falta da percepção adequada pelos receptores de gás carbônico. O oxigênio literal disponível não é percebido como tal. Conseqüências: tontura, instabilidade, sensação de despersonalização. Metaforicamente a imagem é muito interessante; há algo que não consegue respirar; que não identifica o oxigênio presente; mas de que oxigênio estamos falando? Sem dúvida não é do literal! É claro que o ar concretamente falando não está restrito, mas há algo sufocando.

            Caracteriza-se o transtorno:

0 transtorno de pânico se caracteriza pela ocorrência espontânea e inesperada de ataques de pânico. (....)

0 primeiro ataque de pânico, muitas vezes, é completamente espontâneo, embora os ataques de pânico, em geral, ocorram após excitação, esforço físico, atividade sexual ou trauma emocional moderado.(....)

Os ataques de pânico têm duração relativamente breve (geralmente, menos de uma hora) com intensa ansiedade ou medo, junto com sintomas somáticos como palpitações e taquipnéia. (...)

(1)        Palpitações ou ritmo cardíaco acelerado

(2)        Sudorese

(3)        Tremores ou abalos

(4)        Sensações de falta de ar ou sufocamento

(5)        Sensações de asfixia

(6)        Dor ou desconforto torácico

(7)        Náusea ou desconforto abdominal

(8)        Sensação de tontura. Instabilidade, vertigem ou desmaio

(9)        Desrealização (sensações de irrealidade) ou

            Despersonalização (estar distanciado de si mesmo)

(10)      Medo de perder o controle ou enlouquecer

(11)      Medo de morrer

(12)      Parestesias (anestesia ou sensações de formigamento)

(13)      Calafrios ou ondas de calor”

(Kaplan,2003,p556)   

            Algo ou alguém se assusta diante da vida que se apresenta subitamente “após excitação, esforço físico, atividade sexual ou trauma emocional moderado”. O texto psiquiátrico vai se tornando mais claramente texto mítico. Ele nos apresenta um estilo de consciência que se assusta diante das emoções e da vida. 

            Que figura é esta?  Qual sua história, sua genealogia?

            Hillman nos propõe voltar aos gregos, pois estes nos fornecem uma cultura politeísta mais elaborada e que pode conter o caos “cahos” das personalidades secundárias e dos impulsos autônomos (Hillman, 1993).

            Aproximamo-nos do mito de Pan. Impressiona o fato de que em vários relatos, Pan é um deus abandonado por sua mãe. Estas figuras/mães diante de seu aspecto feio, animal, sexualmente excitado, se assustam e o rejeitam deixando-o (em várias versões) ou acontece a morte de uma delas. É marcante a reação apavorada da ninfa Dríope, mas é o relato de Pan como filho de Penélope que nos chama mais a atenção. Os relatos de Roberto Calasso nos fazem imaginar mais e a caminhar no sentido das relações entre Pan, Penélope e o herói Odisseu.

Pan, o deus mais selvagem e bestial, o masturbador, o aterrorizante, escolheu como mãe a mulher que durante séculos seria indicada como exemplo de castidade e fidelidade: Penélope. Tem duas versões a história do nascimento de Pan. Segundo alguns, quando Odisseu regressou à Ítaca, encontrou "a casa devastada desde os alicerces por emboscados ladrões de mulheres". No meio deles estava Penélope, "a bacante, a raposa puta, que mantém um bordel com majestade e esvazia os quartos, gastando nos banquetes a riqueza do desgraçado". O desgraçado era ele, Odisseu. Então o herói a expulsou. Devia voltar à casa do pai, que um dia deixara feliz, abraçada ao marido. Assim Penélope reviu a planura de Esparta e as montanhas que a circundavam. Nas partes altas de Mantinéia uniu-se com Hermes. Após ter gerado Pan, morreu. Desde então Pan corre e faz música sobre os penhascos da Arcádia ...

...Segundo outros, quando Odisseu voltou à Ítaca, Penélope já deixara passar sobre o corpo cento e oito pretendentes. Com eles fora gerado Pan. Os passos de Odisseu ecoavam nos desolados corredores do palácio, enquanto os pretendentes jaziam ensopados de sangue e Penélope ainda dormia. Odisseu abriu a porta de um quarto do qual não se lembrava. Estava completamente vazio. Na obscuridade era olhado por um menino de expressão inteligente, com dois minúsculos chifres que despontavam entre os cachos de cabelo e com patas de cabrito. Dois cascos lustrosos saíam da pele de lebre que envolvia o pequeno Pan. Odisseu fechou imediatamente a porta. Sem dizer uma palavra, desceu ao porto de Ítaca e desatou de novo as velas. Não sabia o rumo e desta vez ia sozinho.

(Calasso,1990,p.255)

            Odisseu, para vários autores, é visto como o modelo do que vai se constituir como o sujeito moderno. Ele é aquele que se prende ao mastro para ouvir as sereias, mas não se deixa levar por elas.

Quem é Odisseu? O mais astuto dos homens – o que, aliás, até de certa forma o desmerecia, retirando-o da plena visibilidade devida a heróis como Aquiles, para depositá-lo no lugar retraído, acanhado, aquele que em vez de se expor à luz do dia se esconde no escuro ventre de um cavalo de pau. O que distingue Odisseu: a inteligência. Por sinal, de todos os chefes aqueus que cercam Tróia, Ulisses é o que menos se destaca pela honra – como se esta não bastasse para a vitória; como se a inteligência fosse inimiga da honra; como se na inteligência houvesse algo de utilitário, de instrumental.

(Janinne,2002,p.1)

a Odisséia quanto mais esta se aproxima da forma do romance de aventuras. A oposição do ego sobrevivente às múltiplas peripécias do destino exprime a oposição do esclarecimento ao mito. A viagem errante de Tróia a Itaca é o caminho percorrido através dos mitos por um eu fisicamente muito fraco em face das forças da natureza e que só vem a se formar na consciência de si.

As aventuras de que Ulisses sai vitorioso são todas elas perigosas seduções que desviam o eu da trajetória de sua lógica. ... "Mas onde há perigo, cresce também o que salva": o saber em que consiste sua identidade e que lhe possibilita sobreviver tira sua substância da experiência de tudo aquilo que é múltiplo, que desvia, que dissolve, e o sobrevivente sábio é ao mesmo tempo aquele que se expõe mais audaciosamente à ameaça da morte, na qual se torna duro e forte para a vida. ... o eu não constitui o oposto rígido da aventura, mas só vem a se formar em sua rigidez através dessa oposição, unidade que é tão-somente na multiplicidade de tudo aquilo que é negado por essa unidade.

(Adorno, 1985 pg.55)

Uma vítima de um desses sacrifícios é o próprio Ulisses, o eu que está sempre a se refrear e assim deixa escapar a vida que salvou e que só recorda como uma viagem de erros.

(Adorno, 1985 pg.61)

 

            Parece que quem estaria assustado pode ser uma figura com raízes arquetípicas nas figuras de Dríope/Penélope/Odisseu, que funcionando como um estilo de consciência, se assusta e quer ter controle sobre suas sensações; julga conseguir separar o que “de fato estaria acontecendo” do que não acontece de fato (como é descrito nas características do transtorno).

            Sabemos que este “quem” é a personagem que, na pessoa, procura tratamento para o transtorno de pânico e com o qual se identifica majoritariamente. É este que quer, a todo custo, eliminar o “intruso” que vem invadir seu território. A imaginação aproxima este “quem” de uma figura além das experiências individuais, das vivências históricas da pessoa nas suas relações familiares. Vai além, também, de uma biologia particular; aproxima-nos de algo muito presente em todos nós; isto que apresenta muitas correspondências com o ideal de sujeito moderno, que tem suas características pautadas por um projeto de liberdade individual e de emancipação (dominação da natureza). Uma personagem que foi sendo constituída na internalidade do homem e que busca a autonomia da razão; que suporta os processos de racionalização, unidade sintética das representações; princípio de ligação que permite constituir a representação de objeto; operar sínteses de experiências e ligar representações; consciência do eu unificado na diversidade do tempo. É este sujeito (ego heróico/Odisseu) que nos habita e que através da razão moderna se vincula à degradação do pensar por imagens e à crítica da força cognitiva, da semelhança e da analogia (do pensar por metáforas). 

            Agora podemos então construir outra fantasia.

            Esta figura hiperestimulada toma as manifestações de vida como ameaças. As manifestações que estariam ligadas ao corpo, “respostas da natureza”, seriam vivenciadas como ameaças. Interessante que ameacem exatamente sua integridade, seu controle, sua capacidade de manter suas funções: perder o controle; enlouquecer; instabilidade (Kaplan,2003). É necessário que inúmeras sensações, angústias, etc. ganhem um caráter de conjunto unitário, que se construam com grau de consistência literal, para que este ego heróico possa se afirmar e, ao mesmo tempo, dar representação a esta figura que, diante das contradições dos sentimentos, do desconhecido ameaçador, literaliza os problemas e não consegue usar os recursos, nem a potência da metáfora, separa o que não cabe e constrói a psicopatologia.

            Esta personagem estaria, então, funcionando como ego heróico, que faz de uma multidão de metáforas uma unidade, uma síntese que se transforma num problema literal a ser resolvido. E, como quem resolve, quem leva avante suas rotinas habituais, decifra!

            Mas esta figura, esta unidade identitária de funções heróicas, não pode abandonar as idéias de autonomia, caso contrário, estaria sob risco de morrer ou de enlouquecer (não saber mais como se orientar). Exatamente o que está sendo apresentado na psicopatologia como ameaça literal. Sendo assim esta forma de viver não cessa de produzir sufocamento, controles e prontidões para ataque e para fuga. O problema é a solução: “A Solução que é dada é que é o problema”. Afinal a solução sustenta-se em ideais de autodeterminação, independência e liberdade individual.

            Se pensarmos ainda que esta forma de subjetivação vem sendo acompanhada cada vez mais de sentimentos de desamparo, uma vez que foram sendo abandonados os grandes sistemas (religião, tradição, etc.), que provinham autocertificação, sentido totalizante e explicações teremos, então, agora uma figura ameaçada pelo desamparo. Este, ao invés de funcionar no sentido de colocá-la em contato com suas limitações, seu caráter mortal, impulsiona-a cada vez mais na direção do “controle” e da “autonomia” individual. Não como sacrifício, ascese ou repressão mas, como idéias de vida plena. Os imperativos atuais vêm caminhando no sentido de que você deve viver na intensidade máxima, sentir o máximo, consumir o máximo. Wladimir Safatle fala desta mudança da sociedade da produção para a sociedade de consumo, expondo de forma contundente a questão:

Era como se alguém estivesse atrás de mim com

 um porrete, gritando: “Você precisa estar feliz!

Você precisa estar feliz! (...)

.............................................

De uma maneira esquemática, podemos afirmar que o mundo capitalista do trabalho está vinculado à ética do ascetismo e da acumulação. O mundo do consumo pede, por sua vez, uma ética do direito ao gozo. Pois o que o discurso do capitalismo contemporâneo precisa é da procura ao gozo que impulsiona a plasticidade infinita da produção das possibilidades de escolha no universo do consumo.(...) Devemos pensar aqui na tese de que a incitação e a administração do gozo transformaram-se na verdadeira mola propulsora da economia pulsional da sociedade de consumo, isto ao invés da repressão ao gozo.(...) Não mais a repressão ao gozo, mas o gozo como imperativo...

(Safatle, 2003,p369)

            Acaba-se perseguindo e sendo perseguido por estes imperativos.

            Retomando elementos da mitologia grega, podemos ter por diferença e contraste o que parece estar em conflito. A mitologia grega nos fala de “hybris” (mistura) quando os mortais passam do seu limite e se misturam com os deuses. Não reconhecer que está sendo levado por algo maior é não reconhecer um deus. Querer tomar para si as honras e homenagens que seriam destes, seria uma afronta, uma desonra. Também não seria honrado viver o que nos atravessa em sua intensidade máxima pois os homens, como mortais que são, seriam necessariamente limitados exatamente por serem mortais. Assim por exemplo: os desejos não seriam “meus” pois, são de Afrodite. Ela que atravessa a tudo (humano ou não). Entregar-se completamente a eles seria tornar-se escravo de um deus. A liberdade dos mortais estaria ligada a um cuidado de si e de um viver na medida (o que lhe atravessa). Privilegiando sempre os atos aos desejos, prazeres ou intenções. A ética grega era centrada numa estética da existência. É a vida como material para uma peça estética de arte, já nos dizia Foucault. (Foucault, 1984)

            Estas idéias colocam a liberdade e o limite em posições completamente diferentes. Mas as idéias de liberdade e autonomia individual nos são tão próximas, que fica muito difícil para esta personagem (ego heróico Dríope/Penélope/Odisseu) perceber que poderia ser diferente. Mais difícil ainda seria se dar conta que, vivendo limitadamente, é que se poderia viver liberdade (outra liberdade). Que, não se propondo a controlar tudo o que nos move e nos conduz, mas respeitando estas forças, é que se pode instalar outra relação com o que se chama “controle”.

            Valendo-se ainda da mitologia grega, os mesmos elementos descritos na psicopatologia podem ser vistos de outra maneira, se outro estilo de consciência apresenta-se.  É o que se passa quando Hermes encontra seu filho Pan. Diferentemente de Dríope ou das outras mães de Pan, Hermes o acolhe. Recebendo-o imediatamente coloca-o no colo, rejubilante. Leva-o à morada dos imortais ocultando cuidadosamente o filho na pele aveludada de uma lebre. Apresenta o menino a todos os imortais que se alegram, sobretudo Baco, e dão-lhe o nome de Pan, visto que para todos constituiu objeto de diversão.(Calasso,1990)

            Hermes é o mensageiro dos deuses, o deus das encruzilhadas, dos comerciantes e das trocas. Aquele que não fala verdade inteira. Mas, que verdade se apresenta como inteira? Talvez só aquela que se pretenda literal. Hermes nos mostra outro estilo de consciência, onde as coisas podem ter múltiplos sentidos. E, para Hermes, as características de Pan tais como: Inesperado/súbito; errância (sem direção; sem objetivo; sem finalidades); preguiça; danças e músicas orgiásticas; brutal /animal/ bode; força fálica, não são ameaças. Sabe que para Pan a errância é uma possibilidade de caminhar sem rumo pelo simples prazer de andar e isto o ajuda a pastorear seus rebanhos. Entregar-se ao que pulsa, ao coração que palpita no tesão e ter tremores e sudorese são os sinais da excitação da vida. Seus modos indisciplinados falam de rupturas e descontroles que nos apresentam o inesperado (que não quer dizer interno), o súbito que não é um ataque do qual se precisa fugir; é preciso se entregar. Afinal Pan é ávido de aventuras, de beleza, é pleno, abundante, excitado. Assim como a natureza em seu estado de terribilidade. Ele instiga, ao mesmo tempo, desejo e ansiedade. Porém, é exatamente isto que permite a vivência das imagens encarnadas, vivas, uma relação emocional com o mundo, onde as coisas são e não são ao mesmo tempo (metáfora); reveladoras de verdades profundas; é o olhar mercurial que pode ver Pan como algo que pode ser acolhido. E o que é este olhar, se não o olhar daquele que não diz a verdade inteira? Que ata e desata faixas? Que faz a ligação entre os diversos mundos? Um olhar metafórico no qual as coisas são e não são ao mesmo tempo; porque são metaforicamente. Pan é muito bem acolhido por Mercúrio e alegra todos os deuses, sobretudo Dioniso.

            Enquanto Pan propõe o errar, o entregar-se ao tesão, ao desconhecido, ao irracional e apresenta ritmo, dança, música, riso, diversão e indisciplina, o estilo de consciência Penélope/Odisseu assusta-se, tem medo, foge, treme, recusa e paralisa. Nesta recusa do que é animal, das formas fálicas, dos modos indisciplinados, da aventura, do feio, da excitação sexual, Penelope/Odisseu entra em pânico, recusa a natureza em estado de terribilidade e por isso propõe: controle, amenizar sensações, combate aos pensamentos irracionais e busca de causas. Então seria preciso combater os pensamentos irracionais – as idéias de medo que são desproporcionais ao perigo que se apresenta concretamente; quanto mais se tenta controlar, mais ameaçado se fica e mais se intensificam os sintomas; quanto mais herói astuto, mais ameaças. Por mais paradoxal que possa parecer, é necessário poder perder o controle, se entregar. Mas como se entregar a Pan?  Talvez se entregando à metáfora.

            Estes são os elementos que vão aparecer depois nos tratamentos cognitivos comportamentais para o Transtorno de Pânico. As emoções são vistas como disparadores de um sistema mal regulado, que libera adrenalina demais. É o indivíduo que está alterado, por isso experimenta mais sofrimento acerca dos acontecimentos vitais (característica mais freqüente em pessoas que vão desenvolver transtorno de Pânico). Mas o próprio texto psiquiátrico afirma:

Uma confirmação adicional para os mecanismos psicológicos no transtorno de pânico pode ser inferida a partir de um estudo de pacientes tratados com sucesso com a terapia cognitiva. Antes da terapia, os pacientes respondiam a uma indução de um ataque de pânico com lactato. Após a terapia cognitiva bem-sucedida, a infusão de lactato não mais resultava em um ataque de pânico

(Kaplan, 2003 p. 555)

            Claro que na óptica médico/ego/heróica faz sentido regular o sistema que está alterado, impedindo o desencadear da prontidão. Controlar os sintomas com medicações para baixar a ansiedade aguda e usar antidepressivos para regular o sistema por maior prazo. Os antidepressivos são descritos com certa freqüência pelos pacientes, como dando uma impressão de distanciamento emocional, como se pudessem ter certa indiferença em relação a coisas que anteriormente os tocavam intensamente; e com isto criam-se as condições para que este ego heróico continue funcionando da maneira como funcionou até antes das crises; e resolve-se o problema que está no indivíduo e no seu organismo.

            Seria então um estilo de consciência (ego/heróico/Odisseu/Penélope/Dríope) que mantém controle, prontidão para ataque, luta e fuga, não só em quem desenvolve um quadro de transtorno de pânico, mas em todos nós, um estilo de consciência que não pára de produzir um viver sem ar, ameaçado e pronto para o ataque, no limite do pânico.

            Lendo desta maneira, texto psiquiátrico e texto mítico vão deixando de ser duas categorias diferentes, ao contrário, vão sendo amalgamados.

            Partindo destas leituras, nos perguntamos se faria sentido medicar?

            Não seria de se esperar que a pessoa pudesse constituir a possibilidade do olhar imaginal, metafórico, e não eliminar o que estaria aparecendo sintomaticamente? Não se esperaria mudar o olhar sobre o que está asfixiado naquela forma de vida?

            Não estaria, então, a medicação simplesmente suprimindo o que precisa ser visto metaforicamente?

             A pergunta, acreditamos, deve ser refeita.

            Quem é que precisa ser medicado?

            O que precisa ser medicado?

            Ou então:

            Que condições seriam necessárias para que as manifestações de Pan pudessem ser recebidas por uma consciência de Hermes?

            Precisamos, antes de mais nada, nos afastar da idéia unitária de psique, da concepção de mundo que vê as pessoas como “indivíduos” indivisíveis e procurarmos dar voz aos “Quems”.

            Perguntamos então:

            - Quem ou o que seria interessante que fosse medicado?

            - Quais os objetivos teríamos ao medicar alguém?

            Quem precisa ser medicado parece ser o ego heróico. Certamente não para que fique mais forte, mas para dar espaço para outros personagens. A figura Dríope/Penélope/Odisseu está assustada demais. Ela não vai conseguir ficar com nada, com nenhuma imagem, só fugir para o literalismo. Algumas das medicações usadas são inibidores de recaptação de Serotonina. Substância relacionada a sensações de saciedade e inibidora de comportamentos de luta e fuga. A medicação pode permitir que esta figura fique menos ameaçada, que fuja menos; é necessário que as condições sejam alteradas. Introduzir uma medicação seria uma das maneiras de interferir com as condições em curso (não a única, afinal o encontro terapêutico vai fornecer um espaço, em que as condições para ficar com as imagens também sejam favorecidas). É este personagem heróico que precisa ter condições de ficar diante das manifestações. Estou, com isto, afirmando que a medicação não só provoca os efeitos esperados e descritos pelas pesquisas, mas que isto pode ser usado como facilitador neste processo.  A polarização unilateral vai se colocando ao afirmar que: “Se os pacientes melhoram (os sintomas) significativamente com antidepressivos, há uma alteração subjacente de neurotransmissores relacionadas à causa do transtorno”. Claro que há alterações nos neurotransmissores; imagino que nada do que funcione no cérebro, aconteça sem alterações dos neurotransmissores; eles podem muito bem ser os elementos que fazem os contatos entre os neurônios, mas não há nisto nada que afirme seu caráter causal na determinação do transtorno, a não ser a fantasia ego/heróica. Esta sim é que precisa do suporte biológico para dar literalidade causal aos elementos.

            Claro que o medicar-se pode ser incorporado nos mecanismos do ego heróico e, diante de cada situação ameaçadora, lançar mão da mesma estratégia (medicação). Pode com isto não mudar em nada a posição que não pára de produzir asfixia e pânico; pode usar esta estratégia para escapar e evitar o contato com o material que palpita e pede por ar, e talvez, por isso mesmo, o transtorno de pânico tenha altos índices de recaídas e de casos que evoluem cronicamente e não se consegue a retirada da medicação após um período de estabilidade sem crises (índices de recaída em 6 a 12 meses após o tratamento variam de 30 a 75%). Importante perceber que os sintomas literais não são o material fundamental a se trabalhar psicologicamente. A interrupção das expressões agudas dos sintomas não vai suprimir as questões a serem vistas metaforicamente, as questões da vida vão continuar presentes, mesmo sem os sintomas agudos. Um paciente, por exemplo, apresentava crises de pânico quando tinha que sair de sua casa sem um destino prefixado, sem seu trajeto previamente definido; mesmo depois dos sintomas controlados, ele continuava tendo imensa dificuldade de explorar outros caminhos em sua vida; mesmo que literalmente ele tenha conseguido guiar sem planejamento prévio, ele não conseguia isto metaforicamente. Outra paciente passou a apresentar crises depois que surgiu a possibilidade de fazer uma longa viagem, que a deixaria longe de seus familiares, aos quais era muito ligada ambiguamente (amor e ódio); mesmo com os sintomas controlados, as dificuldades para largar suas posições de segurança, com sentimentos muito ambíguos, continuavam presente.

            Ao iniciar uma apresentação deste texto também meu coração disparava, tremia, suava e estava ofegante. Era, sim, liberação de adrenalina. Seria uma crise de pânico? Afinal, algo em mim suava, respirava mais intensamente, fazia com que o coração batesse mais forte. O que fez com que aquilo fosse vivido não como uma crise de pânico, foi quem via aquilo acontecendo em mim. A questão é: quem vê as manifestações e como! Não é o que está sendo liberado ou alterado, mas como isto é vivido e por quem!

            Assim buscamos modificar as condições que podem permitir que outros olhares se instalem sobre os eventos. É comum a pessoa com transtorno de pânico não falar de mais nada além de sintomas literalmente. É preciso que um estilo de consciência Hermes possa se apresentar e acolher as manifestações de Pan (a errância, a aventura, o coração que pulsa, o tesão). Ficar com as imagens que, para a psicologia arquetípica, indica olhar metaforicamente. Mais do que dessensibilizar a pessoa com relação a um conteúdo, como quer a aproximação comportamental, pode dar a chance de desaglutinar o que está literalizado. Expor o fluxo, a vida, no interior do que foi determinado como ameaçador; isto que foi determinado, literalizado, aparece assim como resultado de procedimentos de universalização próprios ao pensamento conceitual, de um olhar desta figura heróica; deixar que a pulsação e as contradições apareçam é trazer a indeterminação para dentro do determinado, sem destruir a determinação.

            Ficando metaforicamente com o que aparece podemos nos aprofundar; sempre mais fundo na metáfora; vendo através de metáforas em metáforas. É preciso entrar na imagem que vem: algo está morrendo, algo está desabando, algo está fora do controle mesmo! É exatamente nisto que vamos mitopoeticamente entrando; indo através do que contextualmente vai se apresentando no encontro. O despersonalizar que assusta este “EU”, permite metafórica que a sensação de morte iminente vá falando da morte metafórica deste que asfixia; vai se instalando a sensação de que o controle do “EU” não dará conta, apesar de todos os esforços. A insensibilidade do sistema respiratório vai falando da falta de arejamento da vida, do ar que falta; ar como “Pneuma”, vida, alma, psique.

            Assim, podemos perceber que não se trata de negar que há uma alteração no sistema respiratório, na percepção do CO2 pelos receptores cerebrais. Pode haver sim! Assim como o sistema simpático deve mesmo estar alterado, como mostram as pesquisas. Não se trata de negar nada disto. A questão que vai se colocando é muito menos negar os achados das pesquisas, mas ver que fantasias vão sendo construídas a partir destes dados. Não há nenhum problema em afirmar estes achados, desde que eles não funcionem exclusivamente como causas, como elementos literalizados. Não se pretende tampouco negar a importância do estilo de consciência heróica, da vontade ou da Razão. Muito menos propor um outro totalitarismo; um totalitarismo de Pan. O desafio que se coloca é saber quais outras possibilidades temos neste momento histórico de encarar Pan, sabendo que são estas as condições nas quais vivemos. Podemos aprender com Hermes e com os outros deuses, afinal eles recebem tão bem a Pan. Percebemos que ele é tão bem acolhido, pois ele lhes traz a festa, música, dança e alegria. Talvez aproximando Penélope/Odisseu do que metaforicamente precisa dançar, precisa de ritmo, música, do tesão, possamos, então, inverter a frase de Plutarco (Plutarco, 419) que apontava a morte do grande Pan e declarar:

PAN NÃO ESTA MORTO!!!!

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Bibliografia:

 

Adorno,T & Horkheimer - Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar ,                                    1985

Calasso,Roberto - As Núpcias de Cadmo e harmonia. São Paulo:Companhia das                                              Letras,1990

Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10 OMS. Porto Alegre:        Ed. Artes Médicas, 1993

DSM IV TM - Manual Diagnóstico Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre:         Ed.Artes Médicas, 1995

Foucault, Michel - O Dossier. Últimas entrevistas.Rio de Janeiro : Ed. Taurus , 1984

Hillman, James -   O Mito da análise - Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1984

______________ -  Paranóia. Petrópolis: Vozes, 1993

______________ - Re-Visioning Psychology. New York: Harper and Row, Publishers,                                      1975

Kerény,K & Hillman,J - Édipo e variações – Petrópolis: Ed.Vozes 1995

Janine, Renato - Meu nome é ninguém (sobre o Canto IX da Odisséia). Sete praias:                              Cultura e mais , 2002

Kaplan,Harold I. - Compêndio de Psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria                           clínica / Harold I. Kaplan, Benjamim J. Sadock e Jack A. Greb – 7.ed.Porto                        Alegre, 2003

Plutarco - Moralia, 419 A-E

Safatle, Vladimir - Um supereu para a sociedade de consumo: obra instrumentalização de                   fantasmas como modo de socialização - Um Limite Tenso Lacan entre a                            Filosofia e a Psicanálise.São Paulo, Ed. Unesp, 2003

 
 
 
 
 
 
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